Quando a zorra da política virou samba

 

Quantas loucuras, dos ministros, os trapalhões. Brasil, Brazil, Brazuca, é Alice num país de ilusões. Atual, né?! Mas o trecho é de um samba de 1984. Crises políticas são mais comuns por aqui do que gostaríamos. E o carnaval, apesar da fama de desempenhar papel de circo (leia-se alienação), tem uma longa tradição de representação das mazelas do país, na maior parte das vezes pela via do humor.

As escolas de samba incorporaram enredos politizados, satíricos ou críticos a partir dos anos 1960, quando o Salgueiro passou a abordar personagens da história que não estavam nos livros. Negros, na maioria. Só então nomes como Xica da Silva e Zumbi dos Palmares viraram samba.

A ditadura vigiou e cooptou as escolas para que pegassem leve. Mas quando os militares estavam saindo de campo, as “atrevidas” Caprichosos de Pilares, com o carnavalesco Luiz Fernando Reis, e a São Clemente, puseram as críticas de vez na Sapucaí.

No ano em que a Operação Lava Jato estava na comissão de frente da Mocidade e os panelaços na escola de Botafogo, veja 7 sambas e desfiles que fizeram história tirando sarro da zorra política que nos é tão peculiar.

 

7) A visita da nobreza do riso a Chico Rei num palco nem sempre iluminadoCaprichosos 1984: Menos de dois meses antes da votação no Congresso das Diretas Já, a abusada Caprichosos fez uma bem-humorada crítica à política brasileira a partir da homenagem aos personagens de Chico Anysio. O palco nem sempre iluminado diz respeito ao apagão que houve na Sapucaí no desfile de estreia da escola no grupo principal. A facilidade de leitura do enredo e o duplo sentido da letra do samba fizeram muito sucesso.

 

6) Morfeu no Carnaval, a Utopia Brasileira – Portela 1986: A Águia de Madureira surpreendeu quando escolheu um enredo politico no ano das eleições que elegeriam o Congresso Constituinte. Mas o samba era cético e continua absolutamente atual: No País da Bola, só deita e rola, no país da bola, quem vem com dólar era o refrão, que levou a escola ao 4º lugar.

 

 

5) Eu Prometo – Caprichosos 1987: O Brasil vivia os debates da Constituinte e a escola queria cobrar que os parlamentares cumprissem o que prometeram nas eleições do ano anterior. Ajoelhou, tem que rezar/ Não quero mais viver de ilusão/ Você prometeu, agora vai ter que pagar/ Não vai me deixar na mão.

 

4) Uma Andorinha Só Não Faz Verão – São Clemente 1994: Ainda sob os efeitos do impeachment de Fernando Collor, uma das escolas mais críticas do carnaval carioca, pregou a união do povo para lutar pelos direitos. Sai Pra Lá Bicho Malandro que eu sou cara-pintada; Fomos à luta e ganhamos a parada. O enredo valeu o vice-campeonato do Grupo de Acesso.

 

3) O Povo conta a sua história: Saco Vazio Não Para Em Pé – Beija-Flor 2003: No ano em que Lula assumiu a presidência, a escola de Nilópolis apresentou uma ode aos excluídos em sua luta pela sobrevivência e levou uma estátua do presidente. A vitória da azul e branco não foi bem digerida pela Mangueira, favorita do ano.

 

2) Boi Voador sobre Recife, Cordel da Galhofa Nacional – São Clemente 2004: A escola de Botafogo retomou sua tradição de sambas críticos. Assinado por Milton Cunha, o enredo usou a história de um truque feito por Maurício de Nassau no Recife para falar da longa tradição corrupta do país onde tudo foi tramado pra virar esculhambação e o que é sério é carnaval.

 

1) O Quinto dos Infernos – Unidos de Padre Miguel 2016: Um dos bons desfiles do Grupo de Acesso, reforçou a ideia de que os governos brasileiros desde sempre cobram impostos demais e dão muito pouco em troca, porque a bandalheira corre solta. A escola terminou em 2º lugar e quase subiu para o Especial.

 

16 de maio de 2016

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